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O FUTSAL E SUAS MÚLTIPLAS POSSIBILIDADES COMO FERRAMENTA DE APRENDIZAGEM

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O FUTSAL COMO FERRAMENTA PARA O DESENVOLVIMENTO DA CIDADANIA

A PRÁTICA DO ESPORTE NA EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR PROPORCIONA A AQUISIÇÃO DE VALORES COMO DISCIPLINA, RESPEITO ÀS REGRAS, AOS COLEGAS E AO ADVERSÁRIO, SOLIDARIEDADE, SUPERAÇÃO, AUTOCONFIANÇA E AUTONOMIA

É inegável que os esportes, principalmente o Futsal e o Futebol, são as práticas corporais mais solicitadas pelos alunos nas aulas de educação física. Não estamos aqui para discutir o mérito ou os porquês de o esporte ter um lugar de destaque na escola. Influência da nossa cultura? Influência da mídia? Influência do professor? Influência da família?

Por certo, a maioria das escolas hoje tem uma quadra de futsal disponível para as aulas de educação física. E, com muita frequência, escutamos da parte dos alunos: "Que horas vamos jogar?”; "Professor, empresta a bola para jogarmos?”.

O Futsal pode e deve ser utilizado como ferramenta para o desenvolvimento da cidadania, conforme assinala a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). No entanto, muitas vezes, observamos que os professores de educação física não vislumbram todas as possibilidades que devem ser exploradas durante a prática de esportes. A preocupação, na maioria das vezes, está centrada no desenvolvimento e aprimoramento dos fundamentos técnicos, no conhecimento das regras e de alguns sistemas táticos, priorizando apenas a dimensão procedimental do conteúdo em detrimento das outras dimensões.

O Futsal tem de ser visto em sua dimensão mais ampla, principalmente no que se refere aos ganhos atitudinais, aos valores que estão presentes no esporte, como disciplina, respeito às regras, aos colegas, ao adversário, saber ganhar e perder, solidariedade, superação, autoconfiança, autonomia, entre outros tantos. É por meio da participação social e da cooperação com os colegas que a criança passa a praticar princípios democráticos e a ter uma vivência coletiva.

Cabe destacar que toda criança que pratica esporte é diferenciada, demonstrando mais autonomia, confiança e liderança. Observa-se, na verdade, que os alunos com maior domínio motor são aqueles que exercem uma liderança natural nas atividades práticas, o que se reflete tanto na sala de aula quanto no convívio com os demais colegas e amigos. É muito interessante a  confiança que essas crianças adquirem quando percebem a cultura do movimento inserida dentro delas. O aluno que pratica esporte na escola desde muito cedo costuma ser desenvolto, seguro, ágil, companheiro e justo, expressando elevado posicionamento crítico.

Durante a prática, as emoções afloram entre os praticantes. Se bem-orientada, ela favorece a afetividade, a sociabilização, a troca, o companheirismo e o respeito às diferenças, tornando o convívio prazeroso. A criança aprende a ter limites e, com isso, a respeitar os direitos dos outros.

Apresentamos a seguir alguns temas que poderão auxiliar a desenvolver uma aula de Futsal que realmente atinja seus princípios pedagógicos.

ESCOLHA DO MÉTODO

Compreender um método de ensino é pensar em caminhos e perceber que os significados mais comuns estão relacionados à maneira de ordenar ou organizar uma ação em busca de um objetivo. Em se tratando de esporte, o método de ensino refere-se ao caminho que se percorre para ensinar e inserir os alunos em suas práticas. Contudo, quem está envolvido com o processo de ensino do esporte deve ter conhecimento de sua complexidade, especialmente pelas relações existentes em seu contexto — aluno-bola, aluno-espaço, aluno-alvo, aluno-companheiro, aluno-adversário, aluno-regra, entre outras. Portanto, as decisões tomadas serão baseadas nos modelos explicativos que vão determinar a percepção, a compreensão das informações e a resposta motora (Garganta, 1998).

Segundo Graça e Oliveira (1995), existem várias maneiras de ensinar o desporto, havendo variações de acordo com a corrente que se quer seguir, o período histórico e, o mais importante, a intenção e a interpretação do educador. Entendemos, assim, a importância de utilizar métodos de ensino esportivo que motivem os alunos. Atualmente, o recreativo com a utilização da bola, os jogos condicionados e os exercícios situacionais são os mais  preconizados pela literatura nacional e internacional. Esses métodos, além de mais prazerosos, desenvolvem os componentes motor, técnico e tático de forma simultânea, estimulando a criatividade, a tomada de decisão e a inteligência cognitiva. Na realidade, esses métodos traduzem o que vai acontecer no jogo formal.

INCLUSÃO E PARTICIPAÇÃO DE TODOS

É preciso ficar atento para que todos sejam incluídos na prática do Futsal. Muitas vezes, já na escolha dos times para o jogo pode ocorrer a exclusão ou a exposição de alunos que não tenham boa técnica ou condição física. Outro erro é permitir que o time que ganha "fique" e o que perde "saia". Deve-se ter cuidado ainda para não separar meninas para um lado e meninos para o outro. É claro que eventualmente isso pode ocorrer, mas o indicado é que todos possam jogar juntos.

Algumas meninas são melhores tecnicamente do que alguns meninos. Além disso, se houver necessidade, podem ser criadas regras que estimulem o envolvimento de todos na dinâmica do jogo. Por exemplo: para valer o gol, ao menos duas meninas têm de tocar na bola; só vale gol das meninas; os meninos só podem dar dois toques na bola, sendo livre para as meninas; jogar de mãos dadas com gol somente dentro da área. Essa questão pode ser discutida e repensada pelo grupo de alunos, logicamente com a mediação do professor de educação física.

Não obstante, também pode haver um aluno com deficiência; nesse caso, é preciso tentar integrá-lo à prática do Futsal. Dependendo da deficiência, podem ser pensadas as possibilidades de sua participação. Por exemplo, um cadeirante, numa aula de chute, pode arremessar a bola com as mãos e lançar a bola para os colegas chutarem ao gol. Também pode auxiliar na arbitragem do jogo ou como treinador de uma equipe.

O princípio da inclusão tem como meta a inserção do aluno na cultura corporal do movimento por meio da participação e da reflexão concretas e efetivas. Busca reverter o quadro histórico da área, de seleção entre indivíduos aptos e inaptos para as práticas corporais, resultante da valorização exacerbada do desempenho e da eficiência. Nesse sentido, o esporte deve ser um mecanismo de inclusão para que possam ser desenvolvidos os saberes pessoais, cognitivos e sociais de crianças e adolescentes, respeitando sua individualidade e suas particularidades referentes ao desenvolvimento motor e à aprendizagem motora.

INICIAR E FINALIZAR EM RODA

O início da aula de esportes em roda possibilita que o professor apresente os objetivos, desenvolva algum conhecimento teórico breve (conhecer) e o que é esperado dos alunos ao longo da aula. No final, novamente em roda, é possível conversar sobre o que foi realizado (fazer) e destacar os aspectos atitudinais (ser e conviver) que foram evidenciados. Os conteúdos conceituais e procedimentais mantêm uma grande proximidade, na medida em que o objeto central da cultura corporal de movimento gira em torno do fazer, do compreender e do sentir com o corpo. Já conteúdos atitudinais apresentam-se como objetos de ensino e aprendizagem, apontando para a necessidade de o aluno vivenciá-los concretamente no cotidiano escolar, buscando minimizar a construção de valores e atitudes por meio do currículo oculto.

Para Darido (2008), a inclusão dessas dimensões significa que as aulas de educação física deixam de ter um enfoque ligado apenas ao aprender a fazer e passam a incluir uma intervenção planejada do professor quanto ao conhecimento que está por trás do fazer, além de fomentar valores e atitudes nas práticas da cultura corporal do movimento.

DESENVOLVER A INTERDISCIPLINARIDADE

A interdisciplinaridade, como aponta Raynaut (2011), pressupõe uma relação íntima de diferentes áreas, procurando compreender a complexidade do objeto de estudo, utilizando-se de saberes diversos e do intercâmbio entre eles. Nessa perspectiva, a educação física desempenha um papel de relevante importância na vida escolar da criança, visto que pode realizar a mediação entre a prática e o processo de aprendizagem, utilizando o corpo como instrumento de construção real do conhecimento.

Podemos exemplificar relacionando a educação física e a geografia. O desenvolvimento de aspectos como esquema corporal, lateralidade, estruturação espacial, orientação temporal e pré-escrita é fundamental para a aprendizagem. A educação física necessita da lateralidade para o domínio das leituras espaciais do campo ou da quadra onde se desenvolvem os jogos. A autonomia sobre o espaço do jogo, articulando o olhar aos movimentos, e a antecipação da jogada são exemplos de aplicação da lateralidade.

A geografia, por sua vez, necessita da lateralidade para propor a leitura do mapa. O mapa é uma síntese do espaço, é um texto que devemos ler de modo competente e consciente. O leitor do mapa o lê de maneira espelhada; ficamos de frente para o mapa e lemos os elementos que estão à nossa frente, sendo preciso pensar de forma reversível para poder entender a orientação proposta.

Vamos imaginar um leitor lendo o mapa do mundo, interpretando a localização do continente africano em relação ao Brasil. Ao localizar o Brasil em relação à África, observando-se o mapa, a África ficará à direita do leitor, ou seja, a leste do Brasil; do ponto de vista do africano que está de frente para o leitor, o leste ficará à sua esquerda. Assim, a consciência do eixo de lateralidade é muito importante para o entendimento do mapa.

Também é possível desenvolver atividades que trabalhem integradamente a educação física com matemática, linguagem, escrita, filosofia, biologia, saúde e qualidade de vida, entre vários outros componentes curriculares.

Princípios como os de interdisciplinaridade e diversidade aplicam-se na construção dos processos de ensino-aprendizagem e orientam a escolha de objetivos e conteúdos, com vistas a ampliar as relações entre os conhecimentos da cultura corporal e os sujeitos da aprendizagem. O objetivo é legitimar as diversas possibilidades de aprendizagem que se estabelecem com a consideração das dimensões afetivas, cognitivas, motoras e socioculturais dos alunos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O esporte atualmente ensinado na escola é, na maioria dos casos, ou de caráter competitivo ou de extremo descaso (por exemplo, quando o professor apenas divide as equipes e dá uma bola para que os alunos joguem). Por meio de nossas experiências, julgamos que é possível construir, ao longo de todos os anos escolares, uma proposta pedagógica que, além de desenvolver no aluno os aspectos específicos do futsal, possibilite seu crescimento como ser humano.

É na aula, esse espaço fundamental, que temos grande chance de trabalhar tais conteúdos e conceitos com todos os alunos, discutindo seu teor regimental, analisando suas possibilidades e identificando as diferenças. Assim, do real ao possível, pode-se permitir sua apropriação por parte dos alunos como fenômeno esportivo, além de suas transformações como fenômeno educativo.

Acreditamos em uma educação física escolar que contemple todo o movimento humano, que não fique restrita somente à prática do esporte. Ela deve estar alicerçada na proposta pedagógica da escola e, principalmente, ser contextualizada à realidade.

Esperamos que este artigo possa contribuir para o crescimento do Futsal e, em especial, para a qualidade das aulas ministradas pelos professores de educação física no ambiente escolar. Por fim, desejamos proporcionar novas perspectivas aos profissionais da área e incentivá-los a realizar outras pesquisas, promovendo uma educação física escolar pedagogicamente orientada, que fuja do empirismo ainda empregado no esporte, sem dúvida um dos maiores fenômenos sociais e culturais do mundo.

 


  • Rogério da Cunha Voser é professor de educação física e fisioterapeuta, especialista em Ciências do Futebol e do Futebol de Salão, mestre em Ciências do Movimento Humano, doutor em Ciências da Saúde, professor e vice-coordenador do Núcleo de Avaliação da Unidade (NAU) na Escola de Educação Física da UFRGS. 
  • João Gilberto M. Giusti é professor de educação física, especialista em Educação Física Escolar e em Gestão Escolar, mestre em Educação Física, coordenador do curso de Educação Física e professor nos cursos de graduação e de pós-graduação na Faculdade Anhanguera de Pelotas (RS).

 

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